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Quem cuida das mulheres que estão cuidando?

há 6 dias
2 min de leitura

Outro dia, escutei a seguinte frase: “Tome conta da sua mãe e da sua irmã”. Fiquei refletindo sobre essas palavras por um tempo, sentindo um desconforto, até que me veio a pergunta: mas quem é que vai cuidar de mim?


As mulheres têm muitos rótulos, alguns bem conhecidos: moça de família, mulher para transar, mulher para casar, mulher que vale a pena e também mulher que é forte.


De onde vêm as mulheres fortes? Está no DNA? Ou será que aprendem, desde pequenas, a ocupar esse lugar, muitas vezes observando outras mulheres da família que também precisaram ser fortes?


Imagino que algumas tenham construído sua força em ambientes amorosos, como parte do desenvolvimento de sua autonomia e independência. Mas penso que muitas outras aprenderam a ser fortes porque não encontraram condições para ser frágeis.


Talvez porque o ambiente em que cresceram não lhes oferecesse a segurança necessária. Talvez porque o cuidado recebido não fosse suficiente para suprir suas necessidades. Talvez porque precisassem lidar com o medo, a violência ou a ausência de alguém em quem pudessem confiar.


São muitas as razões. O que quero dizer é que a mulher forte nem sempre nasce de uma escolha. Muitas vezes, ela é construída pelas circunstâncias.


Mas essa construção não acontece apenas no âmbito individual. Ela também está relacionada às expectativas de uma sociedade que atribui às mulheres determinadas responsabilidades e espera delas uma disposição quase natural para o cuidado.


Basta observar como o cuidado é distribuído e reconhecido socialmente. Cuidar da casa e das tarefas cotidianas, dos filhos e dos familiares, além de oferecer suporte emocional, são atividades historicamente atribuídas às mulheres, muitas vezes sem remuneração, reconhecimento ou valorização. É o chamado trabalho reprodutivo.


O trabalho reprodutivo, tão essencial à manutenção da vida e ao funcionamento da sociedade, é tratado como uma extensão natural do feminino. É amor, vocação, dom. É missão.

Socorro! Isso é um engodo! Parece que estou ouvindo o Antônio Fagundes dizer: “Bino, isso é uma cilada!”.


Estou brincando com as palavras, mas tenho plena consciência do quão sério é esse tema.


As mulheres nascem e crescem sob o olhar de uma sociedade que as ensina a cuidar do outro, a estar disponíveis para o outro. Muitas assumem esse lugar e encontram nele a realização de um objetivo de vida. Para outras, é simplesmente o lugar que sempre lhes coube.


Mas o que acontece quando essa é a única possibilidade que conseguimos imaginar? Quando nossas vontades e nossos desejos parecem não ter espaço para existir?


O problema não é cuidar. O cuidado é parte fundamental da vida. O problema começa quando cuidar deixa de ser uma possibilidade e se transforma em destino. Quando o sacrifício é celebrado e a exaustão é confundida com força.


Me lembrei de alguém dizendo que a mãe, enquanto viva, foi uma santa. (Imagina o peso de viver como uma santa!)


Quem cuida das mulheres que estão cuidando?


Talvez a mulher forte possa descobrir que não é obrigada a ser forte o tempo todo. Que pode cuidar sem se anular e sem precisar dar conta de tudo sozinha.


E que o cuidado que ela recebe não deveria depender apenas de outra mulher.

 
 
 

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