Solidão Contemporânea
- Christiane Costa - Radha

- há 3 dias
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Em março deste ano, uma pesquisa realizada pela *Family Talks, em parceria com a Market Analysis, mostrou que quatro em cada dez brasileiros se sentem sozinhos, e as mulheres relatam isso ainda mais do que os homens.
O levantamento aponta que 41,1% da população adulta relata solidão, evidenciando um fenômeno que já é tratado pela Organização Mundial da Saúde como uma questão de saúde pública.
Mas quais seriam as principais causas da solidão contemporânea?
Ao pesquisar sobre o tema, encontrei algumas respostas: ansiedade e medo da intimidade, relações mais superficiais e aceleradas, ritmo de vida exaustivo, cultura da autossuficiência e transformações nas relações amorosas.
Neste texto, vou propor uma reflexão a partir do meu lugar de mulher cis e heterossexual.
E, para iniciar, preciso trazer o amor romântico.
Nossa cultura criou a ideia do amor romântico: esse amor idealizado sobre o qual quase todos nós, em algum momento da vida, ouvimos falar, desejamos, tentamos viver ou vivemos. A ideia de que existe uma cara-metade, uma alma gêmea, aquela pessoa que vai estar ao seu lado para sempre, que vai conhecer tudo sobre você e, ainda assim, permanecer.
Hoje, pensando sobre isso, me assusta a ideia da simbiose que um casal pode construir.
Por muitos anos, a sensação que tive foi a de que o amor romântico era o amor que realmente importava. O amor esperado. O amor celebrado. O amor que merece ser postado.
Nessa tentativa de cumprir o que é esperado, muitas pessoas viveram, ou ainda vivem, relacionamentos abusivos e infelizes, tentando salvar o outro ou a própria relação, sem perceber que recebem muito pouco ou nada em troca de tanto esforço.
A ideia de “fazer dar certo” é muito forte quando existe uma meta de padrão amoroso. E quando você está longe de cumprir essa meta, é como se houvesse algo de errado com você. Um senso de inadequação.
Mas, com isso, não quero dizer que devemos ir para o polo oposto.
Porque também existe quem, diante da primeira dificuldade ou conflito, abra mão do relacionamento em nome do discurso do “relacionamento leve” (importante: relacionamento tóxico é relacionamento tóxico. Relacionamento abusivo e violento é relacionamento abusivo e violento. Nesse caso, não tem conversa. Tem é que sair fora).
Só que relacionamentos não são leves o tempo todo. São duas pessoas (às vezes mais de duas) tentando equilibrar as peças, entender o papel de cada um e construir algo juntas.
E isso dá trabalho mesmo.
E são essas experiências, os ideais do amor romântico, as alegrias e as decepções que vêm dele, somadas ao que aprendemos sobre amor na infância, que atravessam nossos relacionamentos adultos.
Talvez seja por isso que ansiedade e medo da intimidade apareçam tanto como causas da solidão contemporânea.
Pegando o gancho da ansiedade e do medo da intimidade, cabe falar também das relações superficiais e aceleradas. Lembro aqui da modernidade líquida de Bauman: um tempo em que tudo parece rápido, instável e descartável.
As relações perderam solidez. Existe sempre muita oferta, muitas possibilidades, muitos estímulos. Sem contar o discurso de um eterno processo de melhoria: o corpo ideal, a melhor versão de si, a vida perfeita para ser mostrada.
Nesse contexto, amar alguém pode começar a parecer um investimento alto demais. Porque a lógica do consumo cria a sensação de que sempre pode existir alguém mais interessante, mais bonito, mais leve.
Olha o capitalismo transformando tudo em produto.
E, por falar em capitalismo, como equilibrar uma rotina exaustiva de trabalho com a vida afetiva? Em meio à escala 6x1, à instabilidade do mercado de trabalho, à desigualdade social, à instabilidade política, ao aumento do custo de vida… como fica o tesão? Como fica a disposição para sair de casa e socializar?
Ficar em casa, gastando pouco e descansando no sofá, muitas vezes não é apenas a única opção possível, é também a mais confortável.
O problema é que podemos nos acostumar com isso. E quando percebemos, estamos sozinhos tempo demais.
Se você se identificou com essa parte, te convido a refletir: esse afastamento é mesmo só cansaço ou pode ser uma evitação do contato?
Outro ponto importante é a cultura da autossuficiência.
Vivenciar a solitude é algo que desejo para todas as pessoas. Não existe experiência mais gostosa do que estar em paz na própria companhia. Tocar o próprio corpo com carinho, aproveitar o próprio tempo, passear sozinho, cuidar de si. Isso é lindo!
Mas somos seres gregários. Precisamos do outro. Precisamos do contato. Nos regulamos emocionalmente a partir da experiência relacional.
Amar é uma característica profundamente humana. Amar é vínculo. É criar laços, conexão, troca, presença, sentido.
E isso pode acontecer de muitas formas.
Podemos viver o amor na família, com os amigos (que são a família que escolhemos), com os animais ou no contato com a natureza.
O amor não existe apenas dentro do romance. Essa é apenas uma das suas manifestações.
E por último, existem as transformações nas relações amorosas.
Que bom podermos pensar fora da caixa e entender que não existe apenas uma única maneira de se relacionar.
Hoje temos mais liberdade para escolher como queremos viver nossos afetos, e isso é extremamente importante. Mas, junto dessa liberdade, veio também uma lógica mais individualizada das relações.
Queremos intimidade sem perder autonomia. Queremos vínculos profundos, mas temos medo da dependência emocional. Queremos ser escolhidos, mas também queremos manter abertas outras possibilidades.
Com isso, os relacionamentos passaram a carregar novas tensões. E, aos poucos, sustentar vínculos profundos parece exigir um esforço emocional cada vez maior.
Meu intuito com este texto é apenas abrir espaço para reflexão. Compartilhar um pouco do que penso, sinto e escuto a partir da minha experiência pessoal e do contato com meus pacientes.
Talvez o primeiro passo seja olhar para a nossa própria história e perceber como aprendemos a amar e como sentimos que merecemos ser amados.
E talvez o segundo passo seja ampliar o nosso entendimento sobre o amor e sobre as diferentes formas de viver os afetos.
No fim, talvez a solidão contemporânea não seja apenas ausência de companhia, mas dificuldade de estar presente nas relações.




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